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Cipriano Luckesi

A evolução ofereceu ao ser humano recursos de entendimentos e de decisões a respeito, tendo em vista escolher a conduta tomar diante das circunstâncias do cotidiano. Com esse recurso poderíamos tomar as decisões mais adequadas e equalizadoras para o bem estar próprio e de todos. 

Contudo, devido nossos sistema nervoso funcionar como um todo --- movimento, emoção e razão---, por muitas vezes, automaticamente, confundimos nossas decisões, respondendo às circunstâncias do presente mais por um do que, em equilíbrio, por todos os segmentos funcionais do nosso sistema nervoso, tanto em pequenas como em grandes decisões.

Para compreender isso, vamos tomar a teoria do cérebro trino, ainda que alguns neurologistas, como, por exemplo, Antônio Damásio, considerem que a melhor teoria sobre o sistema nervoso não é a que preconiza que nosso cérebro atua com três segmentos funcionais, mas sim que compreende o sistema nervoso sob a ótica distributiva, ou seja, os neurônios das diversas partes do cérebro podem responder a necessidades especificas e não necessariamente desse ou daquele segmento.

Mesmo com essa restrição, a teoria do cérebro trino nos auxilia a compreender como nossas decisões necessitam ser educadas, a fim que de que as funcionalidades do cérebro atuem de forma conjunta a favor da vida individual e coletiva.

A teoria do cérebro trino foi elaborada, em 1970, pelo neurocientista Paul MacLean e tornada pública em 1990, através do seu livro “The triune brain in evolution: role in paleocerebral functions”. Em sua compreensão, nós humanos temos o cérebro composto por três segmentos funcionais, cada uma deles representando um extrato evolutivo do sistema nervoso entre os vertebrados.

Segundo essa visão, o cérebro humano está composto pelos segmentos funcionais: reptiliano, límbico e neocortex. (O leitor poderá acessar uma  figura do cérebro trino indicada na nota 1, ao final deste texto).

O reptiliano é composto pela medula e pelo cerebelo e tem a função de ajudar o corpo a sobreviver e se manter. Isto é realizado através das funções autônomas do corpo, incluindo a digestão e a respiração; o tronco cerebral controla as respostas ao estresse, inclusive as respostas de "luta ou fuga". O comportamento do segmento reptiliano é automático e dificilmente é alterado. Entre os três segmentos cerebrais, esse é o mais antigo.

O límbico é o segundo estrato funcional do sistema nervoso, responsável por controlar o comportamento emocional dos indivíduos, daí o nome de cérebro emocional, ou seja, ele sedia nossos sentimentos e emoções, sejam positivos ou negativos. E, dessa forma, contribuem ou, de modo exclusivo, orientam nossas ações e reações.

Além de contar com os componentes do segmento reptiliano, anterior a ele na escala evolutiva, conta com os núcleos da base do telencéfalo e com o diencéfalo, este constituído pelo tálamo, hipotálamo e epitálamo; e, ainda, com o giro do cíngulo, com o hipocampo e com o parahipocampo. Esse segmento se faz presente no cérebro da maioria dos mamíferos.

O neocortex é composto pelo córtex telencefálico e está dividido em lobos: frontal --- responsável pelas funções executivas; parietal --- responsável pelas sensações em geral; temporal ---  responsável pela audição e pelo olfato; occipital --- responsável pela visão; insular --- responsável pelo paladar e gustação. O neocortex é o segmento que diferencia o ser humano dos demais animais.

Segundo Paul MacLean é apenas pela presença do neocortex que o ser humano consegue desenvolver o pensamento abstrato e tem capacidade de gerar invenções, assim como de projetar e tomar decisões. É responsável pela linguagem, incluindo a fala e a escrita, como também pelo pensamento lógico e organizado. O lobo frontal permite escolher, projetar e decidir como agir (nota 2).

As amigdalas cerebrais --- estudadas especialmente após os recursos de investigação por imagens, a partir dos anos 1980 ---, em número de duas, sediadas no hipocampo, segmento do tronco cerebral, nos dois hemisférios, são os segmentos responsáveis pelas reações emocionais, vinculadas ao medo.

Em relação às experiências passadas negativas, elas atuam, independentes de nossas escolhas conscientes, “como a dizer” --- “Isso não acontecerá novamente” --- e, dessa forma, nos conduzem a reagir de modo automático e intempestivo às circunstâncias do presente.

Freud em finais do século XIX e inícios do XX, afirmou que uma reação emocional desproporcional à uma circunstância do presente, não é do presente, mas sim do passado; razão pela qual reagimos intempestivamente a algumas circunstâncias, que, ao nosso inconsciente, parecem ser as mesmas circunstâncias do passado. Ele considera que, nesse contexto, o inconsciente é atemporal. Passaram-se anos, contudo, a nova cena é tomada como sendo a mesma do passado, daí a reação intempestiva.

No caso, nossas experiências negativas passadas registradas em nossas amigdalas, como memórias dessas experiências, nos levam a reagir às circunstâncias do presente, como se fossem as mesmas circunstâncias do passado, que irão se repetir. Então, antes mesmo de observar se a experiência do presente é a mesma do passado (ou não), a reação vem automática e intempestiva, como se a presente circunstância fosse a antiga circunstância, que fora impactante e negativa; e que, por isso mesmo, não fora compreendida nem integrada na psique.

Daí, então, passamos a ter ciência de que muitas de nossas reações intempestivas e, por isso mesmo, aparentemente incompreensíveis, tem sua base no segmento límbico de nosso sistema cerebral. No cotidiano, dizemos que essas reações são “irracionais” devido não terem uma razão explícita para terem ocorrido da forma como ocorreram. Nessas circunstâncias somos “tomados” por esses estados emocionais, o que significa que não nos damos efetivamente conta do que está acontecendo. Reagimos.

Reações desse tipo ocorrem devido não se processar uma interação funcional entre o segmento límbico e o neocortex em nossa estrutura cerebral, de tal modo que uma escolha e uma decisão serena pudessem ser assumidas. Essas reações desproporcionais vêm... e nos tomam de surpresa; somos tomados por elas. Nem mesmo há tempo para a devida interação entre os dois segmentos funcionais do cérebro, que possibilitaria ponderações e uma consequente decisão consciente sobre como agir e o que fazer na circunstância que se tem pela frente. Essa decisão não seria demorada, mas “decisão em decorrência de uma escolha”; já a reação automática e intempestiva não tem escolha nem decisão; ela emerge.

Foram feitos estudos sobre as possibilidades de relação entre as amigdalas cerebrais --- sediadas no hipocampo, tronco cerebral --- e o lobo frontal do nosso cérebro (nota 3). Os comandos que partem do lobo frontal --- centro cerebral de ponderações, escolhas e decisões --- atravessam imensas dificuldades para chegar e “dialogar” com as amigdalas; contudo, as reações disparadas pelas amigdalas cerebrais nem mesmo chegam ao lobo frontal para análise e decisão, simplesmente produzem atuações automáticas e intempestivas em nosso modo de agir e estar no mundo.

Desse modo, muitas das nossas reações automáticas e intempestivas à uma circunstância qualquer do presente --- como lembra Freud ---, sendo desproporcionais à essa situação, estão vinculadas a experiências do passado, não compreendidas (“não elaboradas”, como se diz em linguagem psicoterapêutica) e, por isso mesmo, não integradas à psique de cada um de nós. Quando menos esperamos, elas nos tomam de assalto e suprimem nossas possibilidades de entendimento, escolha e decisão. Essas reações tem seu fundamento em nossa biografia.

Wilhelm Reich --- discípulo de Freud e criador da psicossomática, sabia perfeitamente disso, de tal forma que, em seu testamento, nos meados dos anos 1950, deixou seus bens para que se criasse uma Fundação dedicada às mães grávidas, às crianças, com o objetivos de “prevenir das neuroses futuras” (nota 4). A Fundação deveria estar voltada para o cuidado psicológico-educativo das mães e das suas crianças. Reich estava ciente de que a biografia de cada um de nós é determinante para nosso modo de estar na vida e no mundo. Cuidar da gravidez e da infância é cuidar do futuro, à medida que as marcas mais profundas de nossa personalidade estão vinculadas a fragmentos de memória predominante de nossa infância, ainda que não exclusivamente desse período de nossas vidas.

Diante dessa realidade psiconeurológica, o que fazer? De um lado, cuidar das mães para que efetivamente possam ser “mães de seus filhos”, prevenindo traumas da gravidez; cuidar da infância, a fim de que ela não seja traumatizada excessivamente, desde que por alguma experiência traumatizante todos os seres humanos terão passado ou passarão; de outro lado, cuidar de nós mesmos, já adultos, a fim de que nossas memórias --- sejam elas traumáticas ou incorporadas por experiências socioculturais, familiares, comunitárias, religiosas... --- não interfiram excessivamente em nosso cotidiano, nos dificultando a vida, assim como nossas relações com os outros e com o mundo.

Para isso, importa cuidados educativos, psicoterapêuticos, existenciais. Tarefa para pais, educadores, profissionais da saúde psíquica dos cidadãos, serviços sociais, comunitários, religiosos, que se coloquem à serviço da vida.

Nossa tarefa, através da maternidade, paternidade, educação, serviços sociais... é e será dar suporte para crianças, adolescentes, adultos e idosos tenham a possibilidade de possibilitar que o tronco cerebral, predominantemente emocional, converse e se integre com o neocortex, predominante cognitivo e conceitual, de tal forma que nossas ações sejam compatíveis com nossas necessidades individuais, coletivas e ambientais.

Então, a vida poderá seguir seu fluxo para o bem de todos.

 

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Nota

(1)     Figura em http://bio-neuro-psicologia.usuarios.rdc.puc-rio.br/tronco.html.

(2)     As informações sobre os três segmentos cerebrais --- reptiliano, límbico e neocortex --- foram obtidas em https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_c%C3%A9rebro_trino, porém, acrescidas de novas observações.

(3)     Sobre esses estudos ver Joseph LeDoux, O cérebro emocional, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva; Daniel Goleman, Inteligência emocional, Rio de Janeiro, Ed. Objetiva.

(4)     Ver David Boadella, Nos Caminhos de Reich, São Paulo, Summus Editorial, 1985. Um excelente livro sobre Reich; é a expressão da gratidão de David Boadella a Reich.

 

 

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