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 Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

A vida, pelos seus caminhos, cura!

Cipriano Luckesi 

Nós que atuamos em psicoterapia, em função do próprio viés da profissão, perdemos um pouco a dimensão de que a vida, pelas suas múltiplas possibilidades, cura. 

Para efeito deste texto, vou considerar a vida vivida entre o momento da nossa concepção no ventre de nossa mãe e nossa morte. A respeito do “antes” e do “depois” desta existência na vida, temos intuições, percepções e relatos de múltiplas experiências, sendo variadas as afirmações sobre o que acontece no antes e no depois, tendo por base experiências do sagrado. Em função da variedade desses entendimentos, pretendo abordar o tema da “vida que cura”, no espaço da existência que cada um de nós vive neste planeta.

Da concepção à morte, vivenciamos infinitos acontecimentos; muitos deles --- a sua maioria, sua quase totalidade --- nos leva em direção ao nosso futuro, nosso crescimento e desenvolvimento. Na linguagem de Freud, as forças progressivas. Afinal, somos como nos construímos ao longo do tempo, comprometidos com todos os acontecimentos, comprometidos com nós mesmos, como também comprometidos com nossas relações, seja com as pessoas com as quais crescemos e conviemos, seja com o mundo material, geográfico e sociocultural que nos cerca.

Os acontecimentos positivos, que nos ajudaram a prosseguir, são curativos; mas, entre eles, felizmente, em número infinitamente menores, ocorreram também em nossas vidas episódios, que nos impactaram, que não foram compreendidos e/ou processados, de tal forma que permaneceram em nossa psique, como “feridas” não curadas, incrustrados e ocultos na nossa memória inconsciente, mas nem por isso sem uma atuação no nosso cotidiano.

Aqui, desejo sinalizar que a vida, pela sua trajetória e pelos seus infinitos acontecimentos curam, porém, que os episódios traumáticos, não processados, necessitarão de uma ajuda externa de um profissional de psicoterapia. Caso a vida, em sua trajetória, não fosse curativa, todos os seres humanos teriam que passar pelos consultórios psicoterapêuticos e/ou psiquiátricos.

Felizmente, em muitíssimas vezes, a vida cura; deixando para os psicoterapeutas os acontecimentos que não puderam ser processados ou reprocessados no transcorrer da existência com todos os seus recursos. Abençoadas possibilidades!

Nossas relações familiares, as nucleares, assim como as da família ampliada, nos curam tanto. Uma atenção, um cuidado de nossos pais, de um avô, uma avó, de um tio, de uma tia, que, por muitas vezes, nos sustentaram e, de alguma forma, nos disseram: “Lembre-se que estou do seu lado; poderá prosseguir”.

Lembro-me e ainda sinto em meu corpo episódios, em criança, tal como “ter medo do escuro à noite, ao deitar-me” e solicitar que minha mãe viesse para junto de mim. Ela vinha tocava em minhas costas sob a camisa. Ah! Nenhum toque era mais maravilhoso que aquele toque cálido, quentinho, macio, gostoso, que me trazia paz e confiança e me permitia dormir em paz.

Meu filho mais novo nasceu prematuro e com baixo peso, minha esposa, a mãe amorosa é médica e, por isso, tinha a possibilidade de permanecer, durante o dia, no berçário do hospital onde ele permaneceu, após sua saída da maternidade. Durante todos os dias que ele permaneceu em observação e cuidados no hospital, ela entrava para o berçário às 06:00 da manhã e só se retirava às 24:00 hs. Nesse interim, ela inicialmente tocava nas costas do filho com dois dedos (ele era prematuro e pequeno) e, depois, com uma das mãos e... cantava para ele durante as vinte horas diárias que passava com ele. Até hoje, os profissionais do hospital, que acompanharam esse momento da vida, lembram-se do episódio e do canto diário. Meu filho é a mais amistosa e conciliadora das pessoas que conheço. Hoje tem a altura de quase 1,90 cm, aos 21 anos de idades. O que o amor não faz?

É interessante que, em torno de 1980, nos USA, num hospital universitário, as crianças que ficavam nas incubadoras, usualmente, não podiam ser tocadas e choravam muito e também não ganhavam peso. Mas, observou-se que um grupo de crianças começou a ganhar peso. Não se sabia a razão. Vagarosamente se conseguiu identificar que as crianças que ganhavam peso eram cuidadas, pela noite, por uma determinada enfermeira que havia sido admitida há pouco no hospital. Com investimentos, descobriu-se que, pela noite, para acalmar o choro das crianças, ela colocava a mão dentro da incubadora (o que era proibido) e massageava as suas costas e, então, elas paravam de chorar e adormeciam, e, vagarosamente, iniciaram a ganhar peso. Desde então, o professor Saul Schonberg, M.D., Ph. D., e sua equipe, na Universidade de Duke, estimulados por essa situação, em investigações experimentais, constataram que o toque cuidadoso acalmava as crianças e permitia que pudessem assimilar de modo mais satisfatório nutrientes e, então, pudessem ganhar peso e... saúde (ver sobre esse episódio, David Servan Schreiber, Curar: stress, ansiedade e deoressão, Sá Editora, São Paulo, páginas 181-182). É a vida curando.

Fui uma criança multi-repetente na escola; creio que por três ou quatro vezes. Traumas sobre traumas. Como cheguei a ser um pesquisador, um acadêmico, um escritor e conferencista bem sucedido? Entre outros episódios em minha vida, a atitude determinante de um professor que disse a mim e a outros colegas de mesmo infortúnio: “Se vocês forem bem ensinados, aprenderão. Eu vou cuidar de vocês”. De lá para cá, a repetência sumiu de minha vida; aprendi a ler, escrever, estudar, investigar....

E... quantos episódios na vida de todos nós não foram curativos? A atenção de uma irmã especial, de um irmão, de um tio especial, de uma tia, de um avô, de uma avó, de uma professora, de um professor, de um amigo, de um vizinho, de um pastor, de um padre, de uma freira... e de quantos outros... foram curando nossa alma de suas feridas decorrentes de medos, sustos, recusas, exclusões, doenças... Cada um poderá fazer um longo levantamento em suas experiências do passado e encontrar múltiplos episódios curativos implementados pela própria vida, da forma como ocorreu e ainda ocorre.

Também cuidados que, por alguma razão, passamos ter desenvolvido em nossas vidas, tais como frequentar amigos, frequentar grupos de conivência, grupos de estudos, grupos de trabalhos voluntários, grupos de esportes, grupos de atividades físicas, grupos religiosos, práticas pessoais com música, teatro, artes em geral... e tantos outros; múltiplos são os caminhos que a vida nos coloca à nossa frente e que nos possibilitam, sem que até mesmo o saibamos, a restaurar experiências negativas do passado. A vida cura, ainda que, por vezes, sua cura possa ser insuficiente para acessar e reprocessar alguns episódios que ocorreram em nossas v idas.

Então,... quando existem entraves em nossas vidas dessa natureza, decorrentes de experiências do passado, que se fixaram em nossa memória inconsciente e não conseguiram encontrar um caminho de reprocessamento e cura através das dinâmicas da vida, necessitamos de ajuda de um profissional.

Em síntese, creio que não podemos exacerbar nossos pontos de vista nem para um nem para outro lado, isto é, ou dizer que a vida cura todas as feridas do passado e, por isso, não temos necessidade de psicoterapeutas; ou afirmar que todos necessitamos passar por processos psicoterapêuticos. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Tanto ao mar ou tanto à terra, em conformidade com as necessidades!