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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

Traumas psicológicos, sua dinâmica e restauração

 Cipriano Luckesi

31 de março de 2014

 

O termo trauma foi transposto por Freud do âmbito fisiológico e médico para o âmbito psicológico. Fisiologicamente, todos nós temos, por experiência própria, a compreensão do que vem a ser um trauma. Ele pode ter sido menor ou maior, contudo, todos vivenciamos experiências de traumas físicos. Afinal, que criança, “neste mundo de Meu Deus”, não passou por tombos, arranhaduras, esfolamentos da pele, ou ainda, um pouco mais gravemente, torções, pequenas fraturas? Todos passamos por essas experiências, por isso sabemos, de cátedra, o que é trauma físico e que pode ser restaurado, ainda que deixando cicatrizes.

 Todavia, nem sempre compreendemos bem o significado do trauma psicológico e sua restauração. Ele decorre de um episódio impactante na vida de uma pessoa, que, de alguma forma, não pode ser metabolizado, isto é, compreendido, assimilado e integrado à vida. Psicologicamente, o episódio impactante, não metabolizado, gera uma memória que vai para os arquivos inconscientes de cada um de nós e só será restaurado quando emergir à consciência e, dessa forma, for metabolizado.Ainda que não estejamos conscientes dos episódios traumáticos e de nossas reações emocionais, a memória inconsciente atua, de onde ela se encontra ancorada. Como uma Caixa de Pandora, diante de uma nova situação parecida (mas não equivalente) à situação traumatizante, ela atua independente de nossa desejo e de nosso controle. As reações automáticas, intempestivas e “inexplicáveis”, que ocorrem no nosso cotidiano pessoal e coletivo, são sinais dessa realidade psicológica.

Recentemente, tive um sonho e acordei um tanto impactado pelas cenas que vieram à tona, fato que me fez ficar um tempo acordado, atordoado e a pensar, e, no estado de vigília, durante o dia subsequente, continuei a pensar no sonho que me trouxera uma cena ocorrida entre meus 13 e 14 anos de idade. Por que voltar essa cena, meu Deus?

Para compreender o sonho que relato importa saber que, aos 13 anos de idade, fui para um Seminário católico, em regime de internato. Usava óculos desde os 11 anos de idade devido a dois desvios de visão --- hipermetropia e astigmatismo. Usei-o constantemente até os 68 anos, quando submeti-me à uma cirurgia de catarata; agora, aos 71, uso óculos eventualmente.

No sonho dessa noite, emergiu a recordação de uma cena, onde uma haste dos meus óculos (dizia-se “perna”) estava quebrada (certamente em decorrência de alguma traquinice de menino). Meu pai, viera ao Seminário, pois que morava na mesma cidade do internato, tomou os meus óculos e os levou para consertar. No retorno, meus óculos tinham duas hastes diferentes, uma original e outra completamente diferente. Meu sentimento era de incômodo, estranheza, vergonha de ter que usar aqueles óculos junto dos meus colegas (mesmo sem tê-los usado, ainda). Acordei. Incomodado, meio sonambúlico... esta foi a cena biográfica que retornou no sonho.

O incômodo ficou dentro de mim e passei bom tempo acordado, tentando compreender a razão daquele sonho ter vindo à memória agora, aos 71 anos de idade, quase sessenta depois da ocorrência do episódio; então, revivi o incômodo do momento do episódio, e,  levei tempo para voltar a dormir.

Durante o dia subsequente, por várias vezes, a cena retornou à minha consciência e, então, pude, rebuscando na memória, reconstruir a cena por inteira. Diante dos meus incômodos, meu pai retornou à ótica e, então, foi colocado um haste nova também no outro lado dos meus óculos. Pelo menos, agora, as duas hastes eram iguais, ainda que diferentes da parte principal dos óculos (hoje, estaria até bem, um tanto psicodélico!). Dessa forma, usei os óculos por muito tempo, até que viesse um outro. Nossa pobreza não permitia o luxo de trocar os óculos em função de um “fator estético”.

Esse sonho me fez ficar a pensar quem era meu pai. Um homem voltado para prover  a sobrevivência dele e de todos nós; especialmente de todos nós. Ele trabalhava para nós e a questão era viver e sobreviver; não havia luxo, não se buscava a beleza; buscava-se a sobrevivência. Então, agora, pude entender que, para ele, óculos com hastes diferentes, não tinha nenhum problema, pois que possibilitavam ver bem. 

Aquilo que não tive a possibilidade de metabolizar, aos 13,14 anos de idade, podia ser metabolizado agora, aos 71; nem tanto pela idade, mas sim pela possibilidade de restaurar e compreender o episódio

Parece que o sonho veio para me dizer: “Metabolize essa cena e integre-a em sua vida. Ela não precisa permanecer guardada. Para quê? Passado é passado. Passado não tem futuro. O futuro do passado já passou. Metabolize, integre”. Então, compreendendo dessa forma, fiquei bem.

Existem neurologistas que dizem que o sonho é uma mensagem do inconsciente que diz: “Descarte isso. Não precisa mais manter esse episódio negativo dentro de você, dificultando o fluxo da vida”.

Não tinha presente que esse episódio fora marcante em minha vida. Certamente o fora, caso contrário, não teria voltado neste momento, ainda que sob a forma de um sonho. E, por quantas vezes esse episódio, guardado no inconsciente, atuou de forma automática em minha vida? Não o sei, mas certamente que sim 

Nicholas Abraham e Maria Torok, dois psicanalistas húngaros, que viveram em Paris, entre 1940 e suas respectivas mortes em 1975 e em 1998, se serviram do termo cripta para expressar onde permanecem memórias de experiências que vivenciamos e não puderam ser metabolizadas. 

Ainda que não esteja tomando esse termo em conformidade com a conotação utilizada por esses dois pesquisadores, gosto do termo “cripta” para designar o “lugar” onde permanece aquilo que fica na penumbra, escondido, sempre lá, pronto para vir à tona como um fantasma. 

Cripta, nas igrejas --- usualmente basílicas e catedrais ---, é o lugar onde ficam os restos mortais, usualmente de pessoas que foram consideradas santas. Mas... são sempre restos mortais...! Na cripta psicológica permanecem “os restos mortais de episódios”, que, como episódios, já morreram, mas atuam através de seus fantasmas.

Atuam e dificultam a vida à medida que não permitem que sejamos nós mesmos. Em função deles, podemos ter reações no cotidiano, das quais, nem sempre temos consciência, ainda que os outros ao nosso redor percebam e nos sinalizem. Para eles, são estranhas e até incômodas; para nós, não. Para nós, são naturais (ou naturalizadas).

O trabalho terapêutico e/ou psicoterapêutico em nossas vidas atua na perspectiva de que os episódios e cenas do passado, que ainda não foram metabolizados e assimilados, possam percorrer esse caminho, tenho em vista serem integrados em nossa personalidade.

As variadas metodologias que trabalham psicologicamente com cenas traumáticas (livre associação, mobilização de memórias emocionais através de atividades corporais, terapia da metáfora, visualização criativa...) pretendem subsidiar a reorganização da “massa indiferenciada de informações”, que estão guardadas na penumbra  da cripta --- os restos mortais --- sob a forma de memória inconsciente, para que essas informações possam fazer sentido e permitam que a vida siga o seu caminho, de forma livre e desimpedida.

Ah, o meu sonho? Ele me trouxe o episódio encriptado e me possibilitou novo contato com meu pai e me fez compreender, para além do que já havia compreendido até o presente momento de minha vida, quem era ele e o que pensava ser o melhor caminho para garantir a sobrevivência. Para ele, o que importava era sobreviver; a vida estava posta à frente como objetivo.

No cuidado psicológico, importa retomar e reorganizar as informações, de tal forma que se tornem metabolizáveis e assimiláveis, coisa que não tivera possibilidade de ocorrer no momento em que aconteceu o episódio. Creio que meu sonho foi uma ida à cripta, para retomar “os restos mortais” do episódio/cena que relatei acima, a fim de que pudesse, organizando-os um pouco mais, reconciliar-me com o que ocorreu, assim como com meu pai e, junto com ele, com meu passado; afinal, comigo mesmo, com a vida como ela pode ser, ciente de que sobrevivi e aqui estou e bem.

Wilhelm Reich --- psiquiatra alemão, discípulo de Freud, criador da psicossomática --- estruturou a personalidade em três camadas --- a superficial (ações da vida cotidiana), a intermediária (onde, segundo ele, moram os demônios desvendados por Freud) e a central (onde reside quem efetivamente somos, nossa essência). Os episódios vividos, mas não metabolizados, compõem a segunda camada, que pedem para ser reconhecidos e reordenados. Lá está a cripta, habitada pelos “seres” e “fantasmas”, restos mnemônicos de nossas experiências negativas, não metabolizadas.

Num episódio traumático, dão-se “duas lógicas”: uma, a “lógica do traumatizado”, impactado emocionalmente, incapaz de metabolização, e, a outra, a “lógica do episódio” na sua complexidade, que tem início, meio e fim (o fato de ter um fim garante que existiu um “depois”, para além do episódio traumático e que certamente não conseguimos perceber, devido a não metabolização dos acontecimentos componentes do episódio).

O traumatizado vive a cena como um impacto inesperado, como algo que foge à sua lógica de compreensão, destrutivo, portanto emocionalmente carregado, não metabolizado e não metabolizável; faltam-lhe recursos para tanto. E essa é a memória que permanece inconsciente e que atua de modo automático e intempestivo.

David Grove --- psicoterapeuta neozelandês, criador da terapia da metáfora --- nos diz que a fixação da memória traumática ocorre em T-1 (= tempo-1), o momento anterior ao centro do episódio traumático, fato que faz com que o traumatizado permaneça constantemente esperando que o episódio se repita novamente como se ainda fosse acontecer; fato que faz com que não tenha possibilidade de compreender o que ocorreu e que e como sobreviveu ao episódio devastador (importa entender a “qualidade devastadora”, aqui, está sendo compreendida na perspectiva do traumatizado; não segundo um juízo externo); o que ocorreu foi tão incompreensível que a nossa psique prefere reter a memória da ameaça de que algo vai ocorrer do que o próprio fato.

À medida em que permanecemos fixados em T-1, não podemos ter consciência do que aconteceu em T (os acontecimentos componentes do próprio episódio), como também não podemos ter consciência de que sobrevivemos no tempo subsequente ao episódio (T+1), o “depois”. Sobrevivemos à situação, mas, no caso, permanece no nosso inconsciente o conhecimento desse fato.

Pela neurologia, sabemos hoje, que as memórias inconscientes de medo e de ameaças estão sediadas nas amígdalas cerebrais e estas, por sua vez, atuam automática e intempestivamente, independentes de qualquer mediação dos lobos frontais, sedes do conhecimento, raciocínio, reflexão e escolhas. 

Ao primeiro sinal de que alguma experiência passada negativa “possa acontecer novamente”, elas disparam um alerta e uma reação, mobilizando todo o corpo de cada um de nós, tendo em vista uma reação de defesa da própria integridade. Nessa circunstância, as amígdalas dizem: “Isso não pode e não vai acontecer de novo”. Então, vem a reação intempestiva, usualmente inadequada, pois que arcaica e, por isso mesmo, descontextualizada. Nesse contexto, não podemos nos esquecer que Freud nos lembrou, há cem anos, que o inconsciente é atemporal. Vale, aqui, à pena, lembrar que as amígdalas, pela sua capacidade intempestiva e automática de perceber e agir, pro vezes nos salva de situações inesperadas; mas esse é um conteúdo para uma conversa em outro momento.

Na lógica do traumatizado, o episódio permanece inassimilável, incompreensível, absurdo, não poderia ter acontecido... o que leva a “assumir que não aconteceu ainda (= T-1)”. Mas, na lógica do episódio, ele aconteceu e do jeito como aconteceu (os acontecimentos são fatos). O traumatizado sobreviveu após o episódio, mas o fragmento da memória traumática ainda não sabe disso. À medida que permanece congelado em T-1, não pode reconhecer que a sobrevivência ocorreu.

O que o sonho compreendido, seja ele factual ou simbólico, faz? O que a psicoterapia faz? O que fazem as sessões da terapia da metáfora? David Grove não tem dúvida em nos dizer que, através da terapia da metáfora, organiza-se “a massa indiferenciada de informações”, registrada e contida na memória inconsciente, fato que permite entrar em contato e reconhecer o aprisionamento em T-1, assim como reconhecer e reorganizar os acontecimentos de T e chegar em T+1. Outras metodologias se propõem a fazer o mesmo, seja a livre associação em Freud, seja a mobilização das memórias emocionais através de movimentos corporais, ou outras metodologias.

Duas lógicas, uma, a do impacto incompreensível do que ocorreu (episódios devastadores, acontecimentos inesperados, medos, frustrações, impossibilidades...), outra, a do reordenamento dos acontecimentos e de sua compreensão, o que os torna assimiláveis e, então, quando isso ocorre, sobrevém o alívio, bem estar, serenidade. Reconhecer e reordenar os acontecimentos do episódio traumático permite saber que eles tiveram um fim e que podemos viver libertos desse peso e em paz com ele.

À medida que os acontecimentos do episódio se ordenam e se organizam num todo compreensível, a serenidade chega. Freud nos diz que um episódio biográfico se torna um trauma devido a impossibilidade de sua metabolização pelo traumatizado. O episódio fica incompreensível. Não existe referencial para compreendê-lo; daí permanecer lá na “cripta”, esperando um dia (ou nunca) obter a compreensão do algoritmo do que ocorreu.

No meu sonho, uma era a lógica do menino frustrado diante do seus óculos consertados, sem a simetria e sem estética; com vergonha de ter que usar óculos naquelas condições; outra era a lógica do pai --- a lógica da sobrevivência diante da pobreza: “Assim está bem. Mesmo dessa forma, esses óculos permitem ver bem”. Agora, longe do episódio, na perspectiva do tempo, compreendi a lógica do meu pai e, dessa forma, coloquei-me dentro de sua perspectiva e, então, pude compreendê-lo como um homem que amava a mim, meus irmãos e minha mãe, e, isso serenou meu ser. 

O aprisionamento na lógica do traumatizado (lamentando o passado) não ajuda a solução. Só compreendendo a lógica do episódio, torna-se possível serenar o estado emocional que fora alterado, estado esse que permaneceu como a imagem congelada desse momento.

Como reordenar os fatos para que eles façam algum sentido e possamos prosseguir na vida, sem continuar a esperar que eles vão se repetir novamente, novamente.... e novamente? Essa é a arte da psicoterapia, nas suas diversas vertentes.

 A própria vida --- no seu transcorrer cotidiano, através de novos e múltiplos episódios existenciais, através de contatos com outras pessoas, através da observação do cotidiano, de leituras, de escutas de falas de outros... ---, por vezes, processa curas psicológicas que nem mesmo sabemos que ocorreu e como ocorreu; contudo, certamente que isso se dá com experiências traumáticas mais leves e menos devastadoras. Nas mais devastadoras, necessitamos de ajuda.

A experiência pessoal que relatei, a partir da cena que retornou ao meu consciente por um sonho, parece ter sido simples e trivial e parece ter sido facilmente compreendida e integrada. Aparentemente, sim. Contudo, não posso deixar de lembrar e sinalizar que o episódio ocorreu a quase sessenta anos passados. Muitas águas rolaram sobre ele, especialmente psicoterápicas e de autocuidado.

Mesmo com essa compreensão, vale à pena sinalizar que existiram, existem e existirão muitos, muitíssimos episódios mais devastadores, do ponto de vista emocional, que o relatado. Um abuso sexual perpetrado contra uma criança, seja de que sexo for, contra uma adolescente ou um adolescente ou até mesmo contra um adulto, certamente será mais devastador que a experiência relatada.  Ou mesmo outras experiências, como passar pelo centro de um incêndio ou pelos acontecimentos de um terremoto..., que parecerão não ter fim...

A severidade da devastação, maior ou menor, terá a ver como o traumatizado viveu a circunstância. Por vezes, um episódio, que a nós parece simples, para o traumatizado foi profundamente devastador, assim como outro episódio, que nos parecerá ter sido devastador, o fora menos para outro.

Frente a isso, importa escutar, escutar e escutar, sem assumir qualquer juízo. Afinal, acolher de forma continente e auxiliar o outro a ver o que ocorreu e como ocorreu e que sobreviveu a tudo e que, hoje, está como está na vida, incluindo esse episódio. 

Então, o encaminhamento da cura do episódio traumático passará pelo acesso aos acontecimentos do episódio traumático, num espaço acolhedor e continente, criado e sustentado pelo outro, que, no caso, pode ser o psicoterapeuta e pela consequente organização da “massa indiferenciada de informação”, que se encontra guardada no inconsciente.

Sobre isso, David Boadella --- criador da Biossíntese --- diz que o que cura é “a receptividade viva de outro ser humano”. É nesse espaço que se pode acessar memórias traumáticas, organizá-las, assimilá-las e ultrapassá-las, integrando-as no fluxo da vida.


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