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TRAUMAS PSICOLÓGICOS, ANTICORPOS E RESILIÊNCIA

Luckesi

Salvador, 06 de agosto de 2013

Traumas fragilizam o ser humano em sua estrutura psicológica e, ao longo do tempo, também podem atuar sobre o corpo físico, possibilitando que uma ou outra de suas partes passe a sofrer distúrbios fisiológicos. A memória psicológica é, ao mesmo tempo e de forma integrada, corporal. Freud nos lembra de que o “eu, antes de tudo, é corporal” e Reich, seu discípulo, de que a memória está no corpo. “O corpo é nossa história pessoal congelada”, nos diz ele.

 A retirada da energia psicológica de determinadas partes do corpo, em função de traumas psicológicos, e das memórias traumáticas decorrentes, permite que a estrutura fisiológica seja “minada”, o que possibilita a emergência paralela de movimentos e sintomas no corpo físico. Essa fenomenologia não se dá de forma direta e imediata, mas sim ao longo do tempo.

Usualmente, o portador de um distúrbio corporal, atrelado a um trauma psicológico e sua memória, só se dá conta desse processo --- se chegar a essa possibilidade --- muito tempo após a ocorrência do episódio. Mais do que o trauma, é a memória traumática inconsciente que permanece atuando sobre o indivíduo.

Diz-se que o indivíduo fragilizado psicologicamente perde sua capacidade de reagir satisfatoriamente ao mundo dentro do qual vive e sobrevive. Diz-se, então, que ele perde sua capacidade de resiliência. Mas, de outro lado, entende-se também que permanece resiliente o indivíduo que, no transcorrer da vida, não perdeu sua capacidade de reagir satisfatoriamente aos embates cotidianos; como também se sabe que readquiriu a resiliência após cuidados com suas memórias psicológicas traumáticas.

No âmbito da Física, resiliência ou resilência é a denominação atribuída à qualidade de determinados materiais, que tem a capacidade de se autocarregar de energia quando exigidos ou submetidos a estresse, sem que permitam ocorrer uma ruptura. Após a tensão cessar, poderão apresentar, ou não, uma deformação residual à semelhança do que ocorre com uma vara de salto em altura. Ela verga-se até certo ponto (limite), com força suficiente para lançar o atleta para o alto, sem se quebrar e, depois, retorna à forma original.

Resiliência, pois, no âmbito da física, é a capacidade de um material, depois de ter sido submetido a uma tensão, voltar ao seu estado, por vezes até com pequena perda de sua forma original, contudo, sem ruptura. A resistência é uma capacidade adaptativa à circunstância.

Esse conceito foi transposto para o âmbito da Psicologia, onde a resiliência psicológica pode ser definida como a capacidade do indivíduo de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas sem romper-se internamente, evitando, dessa forma, entrar em colapso.

Então, resiliência psicológica é o processo de atuar com sucesso em experiências difíceis e/ou desafiadoras de vida, especialmente através da flexibilidade emocional, mental e comportamental, isto é, com ajustamento às exigências das demandas internas e externas. A resiliência manifesta-se como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar satisfatoriamente problemas e adversidades.

Abordando traumas e resiliência, gosto de observar David Grove --- criador da metodologia da terapia da metáfora --- fazendo pontes entre áreas de conhecimentos e, constantemente, as estabelecendo entre biologia e psicologia, assim como entre medicina e psicologia.

Nesse processo, ele nos oferece novos recursos para compreender o significado de experiências que se deram e se dão em nossas vidas, que tem a ver com a aquisição de capacidade para gerir e administrar a vida da melhor forma que seja possível.

No caso, sobre “imunologia psicológica”--- integrando os campos da biologia e da psicologia --- ele diz: “A imunologia psicológica é uma teoria que propõe que há um relacionamento correspondente, próximo, entre o mecanismo do sistema imunológico e a estrutura e função dos processos psicológicos. Assim como o corpo tem mecanismos físicos de defesa, também tem um equivalente mecanismo de defesa psicológico” (Na presença do passado, p. 110, texto suporte de seus Seminários para certificação de profissionais na prática da terapia da metáfora).

Naturalmente, no cotidiano, servimo-nos desses processos, construindo uma capacidade de resiliência psicológica à semelhança de como construirmos uma resiliência biológica.

Nesse contexto, ele nos sinaliza que muitas das nossas experiências cotidianas nos subsidiam recursos que nos possibilitam administrar a vida de modo resiliente, isto é, nos oferecem recursos, através dos quais, previamente, estamos nos fortalecendo internamente, de tal forma que podemos nos relacionar com o mundo --- e seus embates --- de maneira flexível. Como um ramo, balançando ao vento --- uma dança com “passos” incansáveis por movimentos sucessivos de resistências e concessões --- sem nunca se quebrar. Sem que, facilmente, nos traumatizemos, nos rompamos.

Sobre a fenomenologia da “inoculação psicológica”, à semelhança do que ocorre com a inoculação biológica, ele acrescenta: “A inoculação psicológica ocorre através de agentes sociais tais como parábolas, religiões, lendas acauteladoras, contos de carochinha, superstições, mitos urbanos, aforismas, orações. Esses agentes, quando internalizados, proveem anticorpos psicológicos, que são os futuros mecanismos de defesa antecipatórios a serem usados contra eventos tóxicos” (idem, p. 110).

Bela compreensão do que fazemos durante a vida nos formando e, pois, segundo essa linguagem, “criando anticorpos”, que nos constituem com uma capacidade de, flexivelmente, receber os impactos da vida cotidiana e, da melhor forma viável, administrar nossa relação com tudo o que nos cerca: relações de todos os tipos, alegrias, dores, prazeres, risos, tristezas, partilhas, gratidões, amores, desamores, confrontos, buscas, integrações, momentos de medo, de coragem, de força... e tudo o mais.

Com essa compreensão, fiquei a pensar em minha infância, adolescência, juventude e constituição da vida adulta, os tantos e tantos eventos que, ao longo do tempo, foram constituindo o eixo que tenho hoje para administrar a vida, assim como as fragilidades que, de vez em quando, inesperadamente emergem à minha frente.

Também fiquei a pensar em meus filhos e, agora, em meus netos e netas. Fiquei a pensar nos estudantes com os quais trabalhei ao longo de meu exercício profissional como educador.

Com o tempo, e com a maturação física, emocional e espiritual, vamos criando anticorpos que nos tornam resilientes, sem nos esquecer do fato de que, de vez em quando, somos apanhados por uma inesperada “virose”, para a qual ainda não temos anticorpos. Então, teremos oportunidade de duas possíveis experiências: traumatizar-nos e nos fixarmos em algum ponto do tempo ou aprendermos mais um pouco sobre os caminhos da vida, integrando mais “alguns anticorpos psicológicos”.

Então, quantas oportunidades de gerar anticorpos psicológicos em nossas vidas: útero materno, com os sentimentos oceânicos, como lembra Freud; os colos de nossas mães, de nossos pais, nossas avós, nossos avôs, tios, tias; as histórias que gostávamos de ouvir contar e recontar; as orações ao “santo anjo do senhor”; os brinquedos e as brincadeiras de fundo de quintal, assim como de nossos quartos individuais ou partilhados com irmãos e, por vezes, com primos e primas; os passeios, as viagens; os campos, as praias; os rios e os mares; as águas, frias e quentes; os múltiplos banhos em bacias, banheiras, chuveiros, de chuva, de lama; as fantasias todas que vivemos a partir das histórias que ouvimos e vivenciamos; dos amores, das amizades; das idas à igreja e aos cultos que não compreendíamos; da escola, da aprendizagem da leitura; da possibilidade de abrir um livro e acordar os personagens que lá dormiam, para que nos falassem de suas vidas e seus encantados modos de ser; da escrita que traduzia o que desejávamos dizer; dos desenhos, das pinturas que nunca conseguiam expressar exatamente o que desejávamos; dos sustos, dos medos; de nossas pequenas doenças (ou grandes); de ficar na cama doente e ser cuidado pela mãe (oh que maravilha!) ou pela avó que parecia não saber o que fazer (mas... que era bom, era!); das peraltices e traquinagens que fizemos; dos estudos; dos romances que lemos (quantas vezes, não sonhávamos ser um daqueles personagens? evidentemente, sempre os heróis...); os amigos, as amigas; os amores e desamores; a sexualidade se acendendo, o olhar curioso, a libido se acendendo; o olho brilhando, o cabelo ao vento; o mundo familiar, o mundo de nossa comunidade, de nosso bairro, ficando pequenos... Quantas e quantas experiências nos “inoculando anticorpos psicológicos”, que nos tem garantido a possibilidade de administramos nossa relação com o mundo.

Somos nossa história. Nossas forças e capacidades constituíram-se com todos esses pequenos e significativos eventos, acredito que, na maior parte das vezes, positivos, ainda que, de vez em quando, com um susto, uma quebra, uma dor. Com tudo isso, chegamos onde estamos hoje.

Quando temos “anticorpos psicológicos”, fluímos pela vida; contudo, quando não os temos e quando alguns “vírus” ainda moram dentro de nós e nos fragilizam e, na vida cotidiana, não conseguirmos ultrapassá-los e integrá-los, precisamos de ajuda. E aí, então, que entra a psicoterapia, tendo em vista ajudar-nos a restaurar o que fora quebrado e, pois, ganhar mais alguns anticorpos, mais resiliência. 

Para além de necessidades específicas de uma ajuda profissional, as boas conversas, um filme que nos toca emocional e cognitivamente, um livro que nos conduz a múltiplas experiências de vida, bons momentos da vida amorosa, viagens, contatos com outras e mais outras pessoas, com outros e mais outros lugares... são recursos que nos subsidiam a “inocular mais e mais anticorpos psicológicos”, cujas consequências se expressam nas possibilidades de uma vida melhor, que implica em relações com nós mesmos, com os outros e com o sagrado.

 

 

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