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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMAS PSICOLÓGICOS E SEUS CUIDADOS ATRAVÉS DA BIOSSÍNTESE

Cipriano Luckesi

Salvador, 01 de agosto de 2013

No final de semana, com data entre 27 e 28 de julho de 2013, ocorreu em Salvador, Bahia, o XI Encontro Baiano de Biossíntese, promovido pelo Centro de Biossíntese da Bahia (CBB), cujo tema foi “Abordagem do trauma na perspectiva da Biossíntese”, cuja a primeira conferência, pronunciada por Eunice Rodrigues, teve como foco o mesmo tema. Então, senti-me estimulado a escrever sobre os cuidados com o trauma através dos recursos da Biossíntese.

 Primeiro, algumas notícias. Minha formação como psicoterapeuta deu-se em Biossíntese, entre o início do ano de 1992 e o final do ano de 1996. Foram cinco anos de bons, significativos e consistentes estudos. Três anos para introdução e apropriação das teorias que embasam a Biossíntese e dois anos para supervisão na clínica psicoterapêutica. Durante esses anos ocorreram quatro horas-aulas semanais.

Fiz a formação no Centro de Biossíntese da Bahia --- CBB, que está vinculado ao International Foundation For Biosynthesis e o representa na Bahia. A coordenadora do CBB é Eunice Rodrigues, psicóloga, psicoterapeuta e Senior Internacional Trainer em Biossíntese. No presente momento, a International Foundation For Biosynthesis está sediada em Heiden, Suíça, e é coordenada por David Boadella.

A Biossíntese é uma área de conhecimentos psico-sômato-terapêuticos criada por Bavid Boadella, nos anos 1970, tendo sido tutor em psicologia humanística na Antioch University International, Inglaterra, residindo hoje em Heiden, Suíça.

Segundo palavras do próprio David Boadella, Biossíntese significa “integração da vida”. Refere-se a um processo específico de formação do self, que guia o crescimento orgânico, assim como o desenvolvimento pessoal e a integração espiritual. Tem como seu ponto básico a busca do equilíbrio entre as três camadas embrionárias constitutivas do ser humano: endoderma, mesoderma e ectoderma, que correspondem, respetivamente, a sentimento, movimento e pensamento.

Ao ser concebido, o ser humano está destinado a formar as camadas embrionárias --- endoderma, mesoderma e ectoderma --- em equilíbrio, numa unidade em funcionamento saudável, equilibrado e fluído.

Todavia, a biografia de cada um de nós, com os seus inumeráveis eventos, interfere nesse equilíbrio, permitindo que as camadas embrionárias, constitutivas de cada um de nós funcionem em desarmonia, com o predomínio de uma delas sobre as demais.

Quando em desequilíbrio, o sentimento (representado do endoderma) pode atuar como predominante sobre o movimento e sobre o pensamento; assim como o movimento (representado pelo mesoderma) pode assumir o predomínio sobre o sentimento e o pensamento; e, por último, o pensamento (representado do ectoderma) pode assumir o predomínio  sobre sentimento e sobre movimento.

Esse desequilíbrio vai desembocar naquilo que Wilhelm Reich denominou de “caráter neurótico”, isto é, um ser humano com um modo de ser e de agir, que, por si, nem satisfatório para si mesmo nem para os outros e o mundo que o cercam.

Traumas e as variadas experiências biográficas existenciais de cada um de nós interferem no equilíbrio e na harmonia dessas três forças que existem dentro de cada um de nós sediadas em cada uma das nossas camadas embrionárias e, dessa forma determinam nossos modos de ser e de agir. Nossos estados de ânimo e ação.

Em princípio, e de modo saudável, nossos movimentos, seguiriam nossos sentimentos e pensamentos formando um todo harmonizado; por seu turno, nossos sentimentos estariam em harmonia com nossos movimentos e nossos pensamentos; e, de forma equivalente, também nossos pensamentos estariam em harmonia com nossos sentimentos e nossos movimentos. Esse equilíbrio e harmonia seriam a glória na vida de cada um de nós. A Biossíntese trabalha para isso.

Porém, em nosso cotidiano, observamos que, por vezes, nossos sentimentos seguem em uma direção, contudo, nossos pensamentos e movimentos em outra; o mesmo ocorrendo, por vezes, com nossos pensamentos que seguem numa direção, mas nossos sentimentos e movimentos e para outra; ou, nosso movimento numa direção, mas nossos sentimentos e pensamentos e para outra.

Estamos “sentindo de uma forma”, todavia, estamos “falando de outra”; estamos, “dançando de uma forma”, mas “desejando estar longe da dança”; estamos “pensando de uma forma”, mas “sentindo e agindo de outra”.

Ou seja, quando, em nosso corpo, nossas camadas embrionárias, em decorrência de nossas experiências biográficas, estão desvinculadas umas das outras --- dissociadas ---, também nosso modo de ser e agir encontra-se dissociado, característica que Reich denominou de “caráter neurótico”, isto é, modo psicossomático de ser que não funciona bem, como deveria estar funcionado para que se pudesse viver bem.

Nossos equilíbrios ou desequilíbrios manifestam-se em nossa relação externa com o mundo --- com tudo o que nos cerca ---, assim como em nossas relações internas com nós mesmos. Ter um “ground externo” significa estarmos “aterrados”, numa relação segura, consistente e saudável com o mundo exterior; ter um “ground interno” significa ter a posse de uma organização interna saudável, que, possibilita uma relação saudável para consigo mesmo, para com o outro e para com o sagrado. O desequilíbrios, o contrário disso.

Assumindo o corpo como o centro da experiência humana, onde tudo ocorre --- saúde ou doença, alegria ou tristeza, dor ou prazer, amor, raiva, ódio, agradecimento, oração... e tudo o mais que ocorre na vida de cada um de nós ---, práticas psicoterapêuticas em Biossíntese tem a ver com o corpo, por isso, seu destino é constituir-se a e apresentar-se como uma “psicoterapia somática profunda”.

São múltiplos os recursos que subsidiam os cuidados psico-sômato-terapêuticos da Biossíntese, tendo em vista possibilitar o equilíbrio entre nossas camadas embrionárias e suas expressões psicológicas. Os interessados nesse campo de conhecimentos poderão recorrer aos livros que estão citados no final do presente texto.

Por enquanto, e para esta circunstância, basta dizer que o modo de atuar da Biossíntese é suave e leve, de tal forma que o cliente possa se sentir seguro (acolhido, continente num espaço físico e psicológico seguro), e, então, possa dar um passo à frente (mesmo que inicialmente bem tímido), seja em direção à abertura das frestas do inconsciente reprimido, limitante, possibilitando que cenas passadas impeditivas da vida venham à tona e possam ser identificadas, reconhecidas, configuradas; e, simultaneamente, possam caminhar em direção à solução desses impasses desvendados.

O cuidado psicoterapêutico, no seio da Biossíntese, não julga, não invade, não força, não empurra ninguém. Simplesmente subsidia para cada um possa abrir-se e fazer o seu caminho de cura psicossomática e de libertação.

Par ilustrar isso, vou fazer o relato sucinto de uma sessão psicoterapêutica que tive o prazer e a alegria de ganhar de David Boadella.

Creio que foi no ano 2000. Realizou-se, no Brasil, um Congresso Internacional de Biossíntese, presidido pelo próprio David Boadella. A equipe de atuou na organização do evento ganhou de Boadella um dia de estudos sobre a Biossíntese. Estudos prático-vivenciais. Cada um de nós teve, grupalmente, direito a uma sessão psicoterapêutica dirigida por ele. Todos assistíamos todas as sessões e, com isso, aprendíamos, devido, após cada sessão, ele fazer uma intervenção teórica especificando cada intervenção e a razão de cada um delas. Todos ganhamos uma sessão, com um belíssimo psicoterapeuta e mestre de todos nós, e, de quebra, abordagens teóricas de quem efetivamente sabia o que estava fazendo.  

Em minha vez de receber esse presente, relatei que andava um tanto ausente de tudo e de todos, “frio”. Ele pediu-me para ficar em pé.

Vagarosamente (ele esperou isso), no meu tempo, fechei os olhos; instantes depois, senti que suas mãos tocavam (super) levemente em meus cotovelos. Então, chegou a cena que estava atuando em mim, certamente há muito, mas naquele período também.

Eu devia ter nove para dez anos e minha mãe quis saber se eu “fazia coisa feia”. Afinal, o que seria “coisa feia”? Tinha a ver com sexo e sexo entre meninos. Mas eu era ingênuo o suficiente para nem mesmo saber sobre o que ela estava perguntando, mas sabia que era bom tocar no pinto e, muito tempo depois, soube que isso se chamava masturbação.

Diante do fato de não saber o que dizer, demorei para dizer qualquer coisa. O meu silêncio significou para minha mãe que “eu não queria revelar o que ocorria entre eu e os outros meninos”. E, então, partiu para a agressão. Nenhuma agressão física, mas sim moral e emocional. A mais pesada de todas era que eu “iria arder no fogo do inferno”. Então, o temor da “praga materna” penetrou em meu corpo, por todos os poros e por todas as partes, como o medo que, quando vem, ocupa nosso corpo todo e nos imobiliza.

Exausto e imóvel, ameaçado e sofrido, parti para o choro. Um choro dolorido e penetrante. Horas, não sei quantas. Então, quando consegui sair do choro e da imobilidade, disse a minha mãe que desejava “comer côco”.

Ela deu-me dinheiro para comprar o côco e disse-me, aos brados, voz alta e alterada: “Faz suas besteiras e, depois, arrependido, quer comer o côco, para ver se passa a culpa do mal-feito”.

Ufa! Ganhei a rua. Comprei o côco, voltei para a casa e, com lagrimas nos olhos, abri o côco, escorri a água, parti e comi os fragmentos da polpa do côco. Eram fragmentos de polpa de côco com lágrimas!

Na sessão, revivi as cenas todas e fui relatando-as aos prantos; e as mãos de David Boadella permaneceram ali tocando meus cotovelos suavemente, nada mais que isso. Vagarosamente, fui percebendo que meus braços abertos se iniciaram a levantar como se fossem em oração. Meus braços subiram e ele, tocando levemente, foi seguindo meu movimento e parecia estar sustentando-o à medida que os braços subiam.

E, assim chegou ao alto, junto com minha cabeça olhando para o céu, ainda que de olhos fechados. Então, retirou suas mãos suaves dos meus cotovelos e permitiu que eu me sustentasse. Elas já tinham me auxiliado a encontrar minha senda. O mais pertencia a mim.

Então, abriu-se diante de mim o céu azul, grande, imenso, com estrelas, belo. Só beleza! Caí numa prazerosa gargalhada, que acordou a minha alma, os anjos e os santos que estavam por ali... meus colegas também!

David Boadella perguntou-me: “Que aconteceu?”. Ainda de olhos fechados, respondi: “O céu é grande demais, infinito. Belo! Nossa como é belo. Por que ficar preso em coisas tão pequenas?”

Então, a harmonia no corpo --- e, pois, na alma.  A integração entre sentimento, movimento e pensamento fez-se num instante. Endoderma, mesoderma, ectoderma, agora, compunham um todo uno e indivisível. Um átimo de tempo no qual se abriram e se expressaram, simultaneamente, alinhamento, integração e harmonia. Um todo. Nenhuma ruptura, nem mesmo sinais de que sentimento, movimento e pensamento estiveram desintegrados.

Fechou-se a sessão, mas eu passei dias e dias --- e mais dias... --- com a sensação de que só existia o céu. O inferno desaparecera de minha vida, assim como de minhas crenças, fossem elas conscientes ou inconscientes.

Vagarosamente, eu, meu entorno e minhas crenças foram ganhando nova forma. O efeito integrador dessa sessão ainda ressoa em mim, anos depois.

A sessão produz um "start", contudo, o refazimento, a recostura, a reconstrução irão se fazendo, pois haverá necessidade de tempo para harmonizar --- na alma e no corpo --- o que fora rompido e, agora, reintegrado.

Sabemos que, por ressonância, outras áreas da vida pessoal, assim como as pessoas que estão no nosso entorno, recebem as ondas de cura emergentes de situações cuidadosas como essa que relatei. A ondas continuarão produzindo suas marolas até os limites do "lago", que parecem ser infinitos.

Abençoei minha mãe e fiquei com pena dela por não ter tido um “David Boadella” que pudesse ajudá-la a ultrapassar e integrar seus traumas, dores, culpas entranhadas em seus ser e em sua vida, e tristezas...

É isso. Essa é a forma, como, no corpo, a Biossíntese cuida dos traumas.

Abraço a todos os que vierem a ler esse texto.


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No Brasil, estão traduzidos dois livros da autoria de David Boadella, que recomendo a todos que despertarem interesses por essa abordagem psicoterapêutica: Nos Caminhos de Reich, São Paulo, Summus Editorial, 1985. A publicação original dessa obra na , ocorrida em 1973, intitula-se WILHELM REICH – The Evolution of his Work. É um belo livro. Um poema em homenagem a tudo o que Reich fez pela humanidade e por todos nós. Correntes da vida: uma introdução à Biossíntese, São Paulo, Summus Editorial, 1992,cujo título original em inglês, publicado na Inglaterra, em 1985, é: LIFESTREAMS –An introdution to Biosynthesis.

Para possíveis interessados. Centro de Biossíntese da Bahia --- CBB --- http://www.biossintesebahia.com.br  e com International Foundation For Biosynthesis --- http://www.biosynthesis.org . Na abertura deste site, David Boadella faz o reconhecimento das diversas abordagens que constituem o pano de fundo da Biossíntese. Interessados poderão dirigir-se a ele.

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