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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMA PSICOLÓGICO, LINGUAGEM LIMPA E PSICOTERAPIA

Cipriano Luckesi

Salvador, 17 de junho de 2013.

 

As metodologias psicoterapêuticas, desenvolvidas desde Freud, têm como objetivo possibilitar ao cliente o uso efetivo de uma linguagem limpa, isto é, que, internamente, reelabore e ordene suas crenças, entendimentos e compreensões do mundo, de tal forma que sua expressão externa e sua ação possam ser saudáveis e fluídas, favoráveis a si mesmo.

Já abordei, em artigos anteriores deste site, os entendimentos de Sigmund Freud e de Davi Grove, tratando dos conteúdos do inconsciente, provenientes de experiências traumáticas. De modo sintético, Freud nos diz que as experiências traumáticas geram condensações da cena traumática em nossa memória inconsciente. Já David Grove afirma que um trauma produz o congelamento de um fragmento biográfico no tempo, configurando uma memória inconsciente.

Essas compreensões indicam que parte dos conteúdos do nosso inconsciente tem sua fonte nos traumas e abusos do passado, sofridos por cada um de nós e, tanto para Freud como para Grove, a memória do trauma atua independente da vontade e do controle de cada um.

Acrescente-se a isso o reforço que, contemporaneamente, os neurologistas têm dado à compreensão das memórias neurológicas inconscientes que atuam por si mesmas ---, tendo por base estudos experimentais e por imagens. Especificamente para o que, aqui, nos interessa, tem contribuído para a compreensão da configuração e atuação das amígdalas cerebrais.

Contudo, vale ressaltar ainda que os conteúdos do inconsciente são mais amplos que aqueles originários das experiências traumáticas específicas, tais como crenças e valores pertencentes aos ambientes socioculturais onde nascemos e crescemos, como família, comunidade, etnia, época histórica, igreja, escola. Pela contiguidade e convivência, vamos constituindo um cabedal de crenças, entendimentos, reações e modos de agir, que, na maior parte das vezes, nem mesmo sabemos qual sua fonte.

Há um certo tempo atrás, andávamos na rua, minha esposa, meu filho mais novo e eu, na seguinte disposição espacial: eu na frente (dois ou três passos) e, atrás, minha mulher e meu filho. Então, ela, sabidamente, chamou: “Seu Zé!” Eu olhei para trás de disse-lhe: “Seu Zé é meu pai”.  Ela replicou: “Eu estou chamando Seu Zé”. Naquele momento, dei-me conta de que estava repetindo inconscientemente um modo de agir do meu pai, que se chamava José e, na rua, sempre caminhava à frente --- não três passos, mas metros e metros à frente --- enquanto nós, mãe e filhos, ficávamos lá atrás. Não estava agindo por uma escolha, mas repetindo um modo de ser que, inconscientemente, incorporara, convivendo com meu pai. Dei uma boa gargalhada e mudei de conduta, para nunca mais agir dessa forma.

Agimos impulsionados pela massa de conteúdos do nosso consciente, mas também pela massa de conteúdos de nosso inconsciente, sendo que, por vezes, os conteúdos do inconsciente tem mais força que os conteúdos do consciente. Aprendemos certas condutas e temos consciência de como agir, mas não damos conta de agir da forma que acreditamos ser a melhor.

Jacques Lacan afirmou que nosso inconsciente é composto por uma estrutura de linguagem e essa compreensão o guiou em toda a sua vida de psicanalista, seja em seus estudos teóricos, seja em suas práticas profissionais.

Ultimamente, a partir de David Grove, tenho trazido para os artigos deste site a compreensão da importância da “linguagem limpa” como um recurso fundamental para direção da vida cotidiana de cada um de nós.

Ele entende que as experiências traumáticas geram, no inconsciente, uma “massa indiferenciada de informação”, fator que possibilita uma “linguagem confusa”. Acima, acrescentei a essa compreensão o fato de que outros fatores também são fontes de conteúdos inconscientes. Nesse contexto, necessitamos compreender que a linguagem tem uma faceta interna e outra externa. A experiência externa é condição da formação da linguagem interna (através das mais variadas experiências e ações, incorporamos o que se encontra no mundo exterior, seja através da convivência, das aprendizagens, como também das experiências traumáticas). Contudo, a linguagem interna, após estar constituída, ou no estágio em que estiver de sua constituição, é determinante para nossas condutas externas, para nossa ação na vida cotidiana.

Parafraseando a afirmação atribuída a Hermes Trimegisto, que diz que “tudo o que está em cima está em baixo e tudo o que está em baixo está em cima”, poderíamos dizer que “tudo o que está externo está interno e tudo o que está interno está externo”.  Ou seja, em nossa estrutura psíquica, incorporamos tudo o que ocorre em nossa existência, seja de modo consciente ou inconsciente e que o que se encontra em nosso inconsciente atua por si.

Em síntese, desejo dizer que nosso inconsciente contém, de um lado, uma “massa indiferenciada de informação”, originária quer seja das experiências traumáticas quer seja de nossa vida cotidiana, que pode gerar uma “linguagem confusa”, porém, de outro, contém também sabedorias, que, muitas vezes, nos alertam, especialmente através dos sonhos, lembrando-nos que já não necessitamos mais de determinados padrões de conduta.

Para clarear a compreensão de que o inconsciente também pode ter linguagem limpa, relato uma experiência. Certa vez, uma pessoa, após uma hora de fala, junto ao seu psicoterapeuta, em torno das dificuldades e quase impossibilidades --- que vivia --- de um relacionamento homem-mulher, no último instante da sessão, disse --- “Tive um sonho” --- e, imediatamente, a seguir, relatou que, no sonho, havia abelhas por sobre sua cabeça e havia uma frase que dizia: “Não mate as abelhas”.

Então, fora-lhe perguntado como entendia o sonho. Respondera que ainda não o compreendia completamente. Ato contínuo, recebera a sinalização de que parecia existir dentro do sonho uma mensagem a dizer-lhe: “Não mate seu relacionamento”.

Nessa situação concreta, de forma contígua e na sequência ao término da fala sobre o relacionamento, mostrando seus impasses e dificuldades, foi relatado um sonho no qual estão presentes abelhas sobre a cabeça e uma frase que diz “não mate as abelhas”.

No caso, parece não haver dúvidas de que o inconsciente está, nessa situação, cristalinamente, sinalizando para a pessoa prestar atenção ao que efetivamente pode estar ocorrendo dentro de si, isto é, prestar atenção ao próprio desejo de permanecer no relacionamento, ao invés de encerrá-lo, mesmo com as dificuldades que, por si, poderão ser ultrapassadas.

Na prática clínica, sabemos que, numa sessão psicoterapêutica, dois fatos relatados de forma contígua, simultânea ou na sequência fazem parte do mesmo conteúdo. Como esse sonho, nessa circunstância, afinal, somente outro desse!  Esse é o lado transparente do inconsciente, que traz uma sinalização cristalina, uma linguagem limpa, comprometida efetivamente com a direção interna do desejo da pessoa.

Ken Wilber, abordando a segunda tópica da estrutura da psique em Freud --- Id, Ego, Superego ---, lembra que o Id não se compõe exclusivamente de conteúdos reprimidos, mas também das potencialidades de cada pessoa, isto é, o lado saudável dos conteúdos do inconsciente. Carl Giustav Jung nos diz que, em seu entendimento, somente uma pequena parte do inconsciente contém conteúdos reprimidos. Para ele, sua maior parte é criativa; fonte de intuições e da inventividade nas ciências e nas artes.

Fiz essa imensa digressão para expressar o entendimento de que todas as metodologias psicoterapêuticas têm por objetivo auxiliar o cliente a encontrar a “linguagem limpa”, em primeiro lugar, ordenando o inconsciente e, a seguir, como reflexo desse processo, ordenando a vida cotidiana.

A “associação livre” --- formulada por Freud, que exige do psicoterapeuta a “atenção flutuante”, ou seja, a “escuta flutuante” (a capacidade de assumir que nada é certo e nada é errado, mas que importa escutar o que o outro está dizendo, a partir do seu mundo) --- possibilita acessar o mundo do inconsciente e, vagarosamente, colocar uma ordem em sua “massa indiferenciada de informação”, distinguindo cada informação, tendo em vista dar-lhe o seu devido lugar --- o seu melhor e mais significativo lugar ---, fator que possibilita que os mundos interior e exterior coexistam e se comuniquem de forma equilibrada e saudável.

O mesmo desejou Wilhelm Reich com a psicossomática, acompanhado dos seus principais desdobradores, segundo meu olhar, Alexander Lowen e David Boadella; o mesmo desejou Jacques Lacan, trabalhando com o inconsciente como estrutura de linguagem; o mesmo desejou David Grove, com a linguagem limpa e a terapia da metáfora; o mesmo tem desejado as práticas do EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing); o mesmo tem desejado as múltiplas vivências investigativas e de autodesenvolvimento.

A linguagem limpa --- que, do ponto de vista interno, representa a busca da distinção entre informações indiferenciadas e confusas no seio dos conteúdos inconscientes e que, do ponto de vista externo de nossas condutas, representa nossas falas e nossos modos de ser e de nos guiar na vida cotidiana --- é meta fundamental para todos nós. Se pudermos chegar à linguagem limpa por nós mesmos, em nosso cotidiano, ótimo. Caso contrário, importa servirmo-nos da ajuda do outro; em específico, quando necessário, das ofertas profissionais daqueles que se dedicaram e se dedicam a auxiliar as pessoas a colocarem ordem em suas crenças, entendimentos, filosofias existenciais e práticas de vida, de tal forma que a vida possa fluir e cada um estar em paz consigo, com os outros e com o ambiente.

Ao lado de tudo isso, importa que existam políticas governamentais para a saúde psicológica dos cidadãos, fator do qual estamos um tanto distantes. Enquanto essas políticas não existem, podemos e necessitamos fazer nossa parte: cuidar de nossas vidas.

 

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