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Curando a Criança Ferida Dentro de Nós

TRAUMA PSICOLÓGICO, LINGUAGEM LIMPA E VIDA COTIDIANA

Cipriano Luckesi

Salvador, 03 de junho de 2013

Nesses últimos dias, o “bicho carpinteiro” tem atuado dentro de mim estimulando compreender o tema de “linguagem limpa”, especialmente seu papel no nosso cotidiano. A prática da linguagem limpa é difícil, especialmente no nosso dia a dia, nas relações com nós mesmos e com os outros. Exige atenção e cuidados. Certamente que na prática psicoterapêutica, porque no ambiente restrito e administrado do setting psicoterapêutico, o seu uso, além de produzir efeitos positivos, é mais simples que na vida cotidiana.

 Nossa “linguagem confusa” (haverá uma definição mais abaixo) --- por oposição à “linguagem limpa” --- tem várias fontes, sendo nossas experiências traumáticas somente uma delas. Abordaremos isso a seguir.

Primeiro, nossas experiências traumáticas, que, como tenho sinalizado nos artigos publicados neste site, se configuram, em nossa memória psicocorporal, como condensação dos elementos de uma cena traumática, na visão de Freud, ou como um fragmento biográfico congelado no tempo, segundo David Grove; visões que, em si, se equivalem. Condensação ou fragmento biográfico congelado atuam automática e intempestivamente em nossa vida cotidiana.

Freud, que todos conhecemos, aos menos nos seus elementos biográficos gerais, foi médico austríaco, criador da Psicanálise, investigador da psique humana, desvelador do inconsciente psicológico e de suas tramas em nossas vidas diárias, assim como de recursos metodológicos para a reconstrução da personalidade de cada um, na direção de uma vida saudável.

David Grove foi psicólogo neozelandês, que viveu nos Estados Unidos da América do Norte (falecido em 2008), que, a partir variados estudos inclusive da Psicanálise e do PNL (Programação Neurolinguítica), formulou uma teoria sobre a “linguagem limpa”, assim como propôs e exercitou a metodologia da terapia da metáfora para o desvendamento, a ultrapassagem e a integração de situações traumáticas em nossas vidas.

Neste texto, desejo servir-me do seu referencial sobre a “linguagem limpa”, que nada mais significa do que expressar cada coisa ou cada experiência, como uma unidade com contornos bem definidos (“isso é isso, e aquilo é aquilo”), sem se confundir, seja por que razão for, com outra coisa ou outra experiência. A confusão, seja na compreensão ou na expressão, não ajuda.

Em nosso cotidiano, de modo usual e inconsciente, usamos expressões insuficientemente distintas umas das outras. Elas, usualmente, são utilizadas de forma indiferenciada, como se fossem a mesma coisa ou como se, constitutivamente, fossem unidas umas às outras, quando, de fato, não o são.

Parece que somos incapazes de expressar alguma coisa só por ela (“ela por ela mesma”). De forma usual e inconsciente, em nossa vivência cotidiana, atrelamos mais alguma coisa a uma determinada compreensão ou a uma determinada expressão.

Sabemos teoricamente que a linguagem tem duas funções: (01) expressar e (02) organizar a realidade.

À medida que produzimos uma expressão, ela vem de dentro de nós, então, manifestamos como a realidade está organizada internamente em nós.

Mas, por outro lado, ela organiza a realidade externa a nós. Nossa fala organiza o mundo, pois sabemos que os sons organizam a realidade (Caetano Veloso que o diga, melhor, já o disse em suas composições sobre o carnaval) Vemos o mundo a partir da lente de nossa expressão (originária de dentro) e, dessa forma, ao menos para nós mesmos, ele tem essa forma e é desse modo.  Então, se a expressão é confusa, a realidade externa também será vista e organizada de modo confuso.

Para ajudar a compreender o que estou tentando dizer, coloco um exemplo. Alguém diz: “Estou lhe dizendo que deverá cuidar de sua saúde. Não é brincadeira o que estou lhe falando”. Duas mensagens, fundidas como se fosse uma só, o que traz confusão, como veremos. Parece, ao sujeito que faz esta comunicação, sem nenhuma sombra de dúvidas, que sua mensagem contém uma única informação, o que não é verdadeiro, pois que essa expressão não está vazada numa linguagem limpa, como veremos a seguir.

O sujeito da expressão acima, numa linguagem limpa, estaria dizendo que é “importante cuidar da saúde”. Nada mais que isso. Para tanto, bastaria a primeira frase. Todavia, agregou  um adendo à sua expressão. Por si, um agregado desnecessário que acrescenta um turvamento ao conteúdo da primeira frase. Pior ainda, desqualificador da “brincadeira”.

No período gramatical completo acima (no caso, as duas frases), fica a parecer que “quem não cuida da saúde”, “brinca”, o que não corresponde à realidade, seja ela material ou conceitual, pois “quem não cuida da saúde”, não necessariamente brinca.

De fato, o imperativo de cuidar da saúde não tem nada a ver com “brincar”, como emerge do contexto da expressão. Por outro lado, e, em segundo lugar, “brincar”, que é uma atividade prazerosa, alegre, feliz, passa a ter a conotação de alguma coisa que representa “descuidado”, o que pode e deve ser falso, pois que “brincar”, apropriadamente, não significa descuidado.

Ufa! quanta confusão na expressão de um entendimento através de uma linguagem que “não é limpa”.

A linguagem confusa, segundo David Grove, estudando o trauma, tem sua fonte numa “massa indiferenciada de informação”, decorrente de uma situação traumática, que fixa e permanece em nossa memória como um momento congelado no tempo.

Propriamente, o momento do trauma --- que fica congelado em nossa memória biográfica inconsciente --- constitui-se pelo conglomerado dos inúmeros fatos da cena traumatizante, assim como pelas inúmeras sensações, acompanhadas de inúmeros sentimentos. Afinal, um bolo de componentes indiferenciados entre si, que atuam parecendo ser um todo organizado, mas, que, de fato, é um todo composto de elementos só aparentemente diferenciados entre si. O “aparentemente” indica que “pareceria” que o que foi dito expressaria uma única unidade de realidade, o que é falso, à medida que, no mínimo, representa três realidades distintas, como vimos.

Se voltarmos ao exemplo, e, se desejássemos compreender a frase com uma “linguagem limpa”, verificaríamos que a expressão contém três unidades de informação: (01) uma unidade de informação é --- “importa cuidar de sua saúde”; (02) a segunda desqualifica a brincadeira, entendendo-a --- “como um modo de agir descuidado e irresponsável”; (03) a terceira, corrigindo a compreensão distorcida sobre brincadeira diria que, verdadeiramente, “brincar significa agir com alegria, prazer e criatividade”; entendimento diverso de “agir descuidadamente”.

A linguagem confusa --- e, pois, imprecisa, “não limpa” --- do dia a dia, tem como fonte uma massa indiferenciada de informações congeladas no inconsciente, e, dessa forma, junta indevidamente experiências distintas como se fossem as mesmas ou equivalentes, quando, de fato, são distintas (no caso, que vimos abordando, três que parecem ser uma só).

Em segundo lugar, importa sinalizar que a fonte dessa massa indiferenciada inconsciente de informação, que, segundo David Grove, configura a experiência traumática em nossa memória, pode provir também de outras fontes, diversas de situações traumáticas pontuais, como crenças errôneas, que herdamos socioculturalmente no contexto vivencial de nossas etnias, de nossa ancestralidade distante e próxima, assim como de nossa família, com atrelamento à experiências morais, religiosas, de educação familiar, de modos de relações com a vizinhança, assim como de modos de relações políticas mais abrangentes, como também da simples vida cotidiana, no seio da qual atravessamos os longos anos de nossas vidas.

Pela convivência, herdamos múltiplas visões do mundo e da realidade, que constituem uma massa indiferenciada de informações dentro de nós, que nos parecem, naturalmente, distintas e válidas, contudo, estão amalgamadas num todo em muitas de suas partes de modo indiferenciado. Por vezes, assumimos como nossas as postura e atitudes, também confusas, de nossos pais, avós, tios, tias, irmãos, de nosso grupo familiar, de nossa comunidade, de nosso segmento religioso, mas que não são nossas. O mesmo ocorre com crenças religiosas, morais e sociais, assim como políticas, que habitam nosso interior devido terem sido incorporadas ou introjetadas, isto é, vieram de fora para dentro como seja estivessem prontas, indiscutíveis.

Afinal, todas essas fontes da massa indiferenciada de informação, de alguma forma, são traumáticas, à medida que, propriamente, não são nossas e, ainda que, por vezes, nos ajudem a sobreviver, também nos dificultaram viver a vida de modo vital, como diria Wilhelm Reich, ou de modo saudável como dizemos todos nós.

Indo um pouco além nessa abordagem, importa observar que as expressões linguísticas disjuntivas, bastante presentes em nosso cotidiano, que poderiam parecer comumente “limpas” do ponto de vista da “linguagem limpa”, todavia, elas também se dão no seio da massa indiferenciada de informações e não nos ajudam a viver de uma forma melhor e mais saudável, seja com nós mesmos ou me nossas relações. Não nos ajudam a repousar na conquista e no bem-estar de nossas vitórias e realizações; como também não ajuda auxiliar o outro a repousar em suas conquistas pessoais.

Um caso ajuda a compreender essa afirmação. Tive uma amiga que comprou um carro belíssimo. O carro que desejava. Quando me apresentou a nova compra, eu, de olhos brilhando de santa inveja, disse-lhe: “Mulher,... belíssimo. Nossa! Você investiu, investiu e conseguiu o que desejava. Fico feliz junto com você e por você. Parabéns, mulher!” Então, ela acrescentou: “Éh... mas, agora, falta pagar 36 prestações!” A alegria foi-se embora. Linguagem confusa e indiferenciada tomou conta da situação.

Uma coisa é a alegria de investir e adquiri o carro. Ponto. Nada mais. Repousar na alegria de ter comprado o carro que fazia brilhar os olhos. Outra é pagar as prestações. O disjuntivo, nessa circunstância psicolinguística não ajuda. Ao contrário, atrapalha. Ainda que pareça um disjuntivo --- desde que, gramaticalmente, o é ---, psicologicamente, não o é.

Mesmo que, materialmente, uma atitude esteja vinculada a outra --- comprar o carro e pagar as prestações ---, o estado de ânimo da vitória é uma coisa; outra é a responsabilidade de pagar o que se deve por um bem que se comprou.

Esse “mas” (disjuntivo) leva embora a alegria da aquisição. Não permite o repouso do prazer da conquista. Linguagem confusa! E ele é usadíssimo no nosso dia a dia. Sempre tem um “mas...”!

O disjuntivo, do ponto de vista da gramática, expressa uma distinção entre as expressões, no caso, psicologicamente, expressa exatamente o contrário: o atrelamento de duas expressões como se fossem uma só. Isso significa “linguagem confusa” e não “linguagem limpa” (como pareceria gramaticalmente) e, com certeza, essa expressão atrapalha a vida.

Evidentemente que esse modo disjuntivo de expressar poderá estar expressando (ou ser explicado por) outros elementos psicológicos, tais como: (01) uma “vergonha” diante dos outros por ter gasto tanto dinheiro na aquisição de um bem material, sem o qual, também poderia continuar a viver comodamente (então, o disjuntivo pouparia da crítica); (02) pode também estar expressando a culpa de adquirir um bem com tais características quando familiares ou pares de uma mesma comunidade ou da mesma família não podem ter o mesmo bem (que direito eu tenho de ser privilegiado?); (03) pode estar expressando culpa religiosa incorporada por crenças errôneas (viver na pobreza, na limitação e no sofrimento é condição para a vida futura no céu). E muitas e muitas outras possibilidades. Contudo, signifique o que significar para cada um, esse disjuntivo --- da forma como aparece e é usado na vida cotidiana --- , do ponto de vista psicológico, impede o repouso no bem-estar de uma conquista. E, tem a mesma fonte de massa indiferenciada inconsciente de informação, da qual falamos acima, que não necessariamente tem seu ponto extremo num trauma pontual.

Como isso atua nas relações interpessoais? Vivemos coletivamente. “Homem algum é uma ilha” é o título de uma obra de Thomas Merton, assim como da compreensão que ele apresenta no corpo do livro. E, o que ele expõe é uma verdade constitutiva da realidade humana. Não existe ser humano sem o coletivo.

As “crianças-lobos”, que conhecemos através de crônicas ou através de relatos científicos, como não puderam aprender com outros seres humanos, aprenderam com os pares do mundo animal que os acolheu e criou. Afinal, na linguagem de Marx, repetida por Paulo Freire: somos seres de relação.

Como somos seres de relação, nossas expressões, até mesmo aquelas que produzimos com linguagem limpa, tocam na “massa indiferenciada de informação” do outro e ele reagirá e responderá a partir dela; da mesma forma que as mais variadas e inesperadas expressões do outro tocará em nossa massa indiferenciada de informações e, então, reagiremos de forma semelhante; na maior parte das vezes, intempestivamente.

Numa relação qualquer, poderá ocorrer que nossa fala toque num ponto sensível do outro e ele responderá e reagirá a partir do toque nesse ponto. Nós também reagiremos de forma equivalente, se a expressão do outro tocar num ponto de nossa massa indiferenciada de informações, sobre o qual ainda não adquirimos domínio.

Então, nessa situação, só a interlocução nos ajudará a “limpar” nossa linguagem e a do outro, possibilitando o entendimento  entre os dois, de tal forma que o campo emocional entre os dois interlocutores também chegue à transparência, abolindo o que era turvo, confuso e causa de incômodos relacionais. Aquilo que, no cotidiano, denominamos de mal-entendido. Afinal, o diálogo, como insistentemente lembrou Paulo Freire.

Importa lembrar que o diálogo --- se efetivamente for diálogo --- coloca os dois interlocutores fora da área de atrito, possibilitando o entendimento. Einstein lembrava que um problema gerado num estado de consciência só poderá ser resolvido num outro estado de consciência, “espacialmente” um pouco acima do anterior.

O mais difícil disso é que, por vezes, também, com base em nossa massa indiferenciada de informações, arrumamos um “medo” de expressar o que vai por dentro de nós: “Como o outro reagirá? Não é melhor ficar quieto?” E, por vezes, esse medo tem um poder paralisante, o que faz com que o entrave na comunicação permaneça e o entendimento não se torne possível.

Uma boa coisa que podemos fazer para vivermos bem --- com nós mesmos --- é prestar atenção às nossas expressões verbais, orais ou não, que não vêm “limpas” de dentro de nós, isto é, especificamente configuradas. O espelhamento dos outros --- ainda que possa ser incômodo --- pode ajudar-nos a identificar onde atuamos inadvertidamente ou até indevidamente.

As expressões que não vem “limpas” revelam nosso interior. Freud diria que “elas podem ser um caminho real para o inconsciente”, à semelhança do que disse sobre os sonhos ou sobre as brincadeiras infantis. Ir para o inconsciente e lá proceder a distinção entre os componentes de uma compreensão da realidade poderá ser uma boa coisa para nós mesmo e para nossa relação com os outros.

Usar uma linguagem limpa nos ajudará a viver melhor, com nós mesmos e com os outros, devido ao fato de que, minimamente, não nos confundirá em nossas compreensões e, pois, em nossas ações.

Mas, também, usar uma linguagem limpa, configurada, nos auxiliará na convivência com os outros. Não lhes daremos mensagens duplas. Estaremos vinculados somente a um ponto de nossa fala. Os exemplos, que usei neste texto --- “Você precisa cuidar de sua saúde” ou “Veja o carro que comprei” --- revelam que basta para expressar nossa mensagem . Qualquer elemento que acrescentemos deverá ser exclusivamente para clarear o que estamos comunicando. Nunca bandear para outros elementos, tais como disjuntivos, qualitativos, comparativos, entre outras possibilidades de estar expressando uma coisa e estar acrescentando outras mais, tendo como fonte  uma “massa indiferenciada de informação”, que mora dentro de cada um de nós.

Não usá-la significa ter o domínio sobre ela. Quanto mais a tornarmos diferenciada, isto é, distinta cada parte desse todo de informações, tanto melhor poderão ser nossas expressões, mas,... muito mais do que nossas expressões, nossa vida.


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