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TRAUMA PSICOLÓGICO, CÉREBRO E CORPO

Cipriano Luckesi

Salvador, 30 de maio de 2013 

Recentemente, tivemos no Brasil o pesquisador Bessel van der Kolk, Diretor Médico e Fundador do Centro de Trauma, do Justice Resource Institute (JRI), nos Estados Unidos da América do Norte, realizando conferências em diversos espaços do nosso país, inclusive em Salvador, Ba.

 Numa entrevista dada ao Jornal A TARDE, com sede na cidade de Salvador, BA, ele  afirmou que o trauma se expressa em nosso corpo, o que, de fato, é compatível com todos os estudos da psicossomática, especialmente com e após Wilhelm  Reich.

Após o contato com o conteúdo da entrevista, fui estimulado a escrever o texto que se segue, no contexto dos artigos que venho publicando neste site.

A compreensão de que o trauma se expressa corporalmente já se encontra abordada em vários dos livros de Wilhelm Reich, dos quais cito alguns, cuja primeira publicação deu-se nas décadas de 1920 e de 1930 --- Função do orgasmo, Análise do caráter, O assassinato de Cristo, entre outros. São obras de capital importância para se compreender como o corpo é a sede das memórias das experiências humanas, tanto as traumáticas (neuróticas) quanto as saudáveis (vitais).

No decurso da primeira metade do século XX, Reich, ao mesmo tempo, discípulo e dissidente de Freud, subsidiou aprofundamentos teórico-práticos no âmbito da psicossomática. Ele formou-se em Medicina no ano de 1918 e, desde então, dedicou-se a compreender a experiência psicocorporal do ser humano.

Seu admirado mestre, Freud, teve seu foco de atenção e estudos investigativos centrados na psique humana, predominantemente sob as óticas psicológica e cultural, ainda que tenha afirmado que “o ego, antes de tudo, é corporal”. Já Reich, um entre os variados discípulos de Freud, tomou como centro de seus estudos, assim como de sua forma de atuação em psicoterapia, as expressões corporais, sempre compreendendo corpo e mente como um todo. Praticamente, tomou como foco de suas investigações a afirmação de Freud acima sinalizada, isto é, o corpo como expressão do ser humano.

Vagarosamente, mestre e discípulo tiveram um afastamento entre si, em função das diferentes abordagens assumidas por cada um. Em decorrência, de um lado, do distanciamento no tempo e, de outro, da percepção do comprometimento emocional que envolve qualquer relação, hoje, podemos verificar que eles mais se complementaram do que se opuseram em suas investigações, estudos e proposições. Reich nunca negou as compreensões estabelecidas por seu mestre Freud. Ao contrário, deu-lhes o suporte corporal necessário.

Freud abordou o trauma como uma condensação de elementos da cena traumática num determinado momento do tempo, que, se expressa posteriormente em sintomas na biografia do traumatizado. Reich, por seu turno, diz que a neurose expressa a cronificação de uma solução bem sucedida como saída para uma experiência traumática (ou traumatizante); experiência esta que, por ser cronificada, posteriormente, traz entraves na dinâmica da biografia de cada um.

No caso, a solução satisfatória no passado, agora, apresenta-se como um impedimento para a própria vida. No passado, ela permitiu a sobrevivência, mas, agora, dificulta a vida em sua fluidez e satisfatoriedade. E, dessa forma, tanto a experiência traumática, em si, como a cronificação de sua solução (ao traumatizado essa era a forma de sobreviver), que se dão no corpo, com o tempo, passam a atuar negativamente na dinâmica cotidiana de cada um.

Em decorrência de suas formulações teóricas, esses dois pesquisadores da psique humana também propuseram práticas psicoterapêuticas diferenciadas. Enquanto Freud, e seus desdobradores, seguiram pela metodologia da “livre associação de ideias” (compreensões, sentimentos, sensações), Reich e seus seguidores trilharam a caminho da psicoterapia através de múltiplas e variadas experiências sômatopsíquicas.

Mais recentemente, neurologistas conseguiram identificar segmentos cerebrais, onde estão sediados componentes do inconsciente freudiano, especialmente as memórias do medo, que nos interessam diretamente para compreender a fenomenologia dos traumas psicológicos, assim como o seu acesso e o investimento em sua ultrapassagem e integração, possibilitando que o traumatizado possa viver de forma mais saudável e melhor.

Joseph LeDoux, em seu livro O cérebro emocional, cita inúmeras pesquisas desenvolvidas por variados pesquisadores, assim como por si mesmo em sua prática de investigação neurológica, que demonstram que a memória inconsciente do medo está sediada nas amígdalas cerebrais, que atuam intempestiva e automaticamente diante de qualquer sinal (real ou aparente) de que alguma coisa acontecida no passado possa acontecer novamente.

As amigdalas cerebrais atuam independente de qualquer atividade mediadora do conhecimento ou do raciocínio lógico, ou mesmo de qualquer raciocínio. Elas atuam diretamente, sem mediações. As amigdalas, a partir dos seus registros mnemônicos, atuam, sem admitir quaisquer perguntas ou respostas a respeito da adequação ou inadequação de sua atuação. Elas simplesmente, de onde e de como estão, atuam.

Esse dado confirma tanto a compreensão de Freud quanto a de Reich a respeito dos padrões repetitivos de conduta que temos, em decorrência de nossa biografia. Do lado freudiano, confirma-se que existe uma atividade inconsciente, que atua por si mesma; e, do lado reicheano, confirma-se sua compreensão de que as memórias das experiências psicológicas dão-se como memórias corporais, o que inclui tanto o cérebro como todas as partes do nosso corpo.

Freud, em sua vida inicial de pesquisador, atuava no campo da neurologia, todavia, a neurologia existente em seu tempo de vida, não dava conta de suas intuições, por isso, deixou-a de lado e seguiu pela clínica. Reich serviu-se das compreensões neurológicas existentes em seu trânsito pela vida e trouxe profundas compreensões sobre o papel do nervoso autônomo simpático e parassimpático em nossa vida, em nossos modos de ser, estar e atuar no mundo.

Isso nos permite compreender que as diversas metodologias, hoje, disponíveis para cuidar das experiências traumáticas têm fundamentos sustentáveis, constituídos ao longo do último século de estudos sobre a psique, sobre a integração psique-corpo, como também sobre as condutas humanas.

Freud, Reich, os desdobradores desses dois gênios dos estudos sobre a alma humana, de modo especial Alexander Lowen, criando a Bioenergética, e David Boadella, criando a Biossíntese (de quem muito aprendi), assim como David Grove, com a terapia da metáfora, Francine Shapiro, com o EMDR --- entre outros ---todos trouxeram contributos significativos para a configuração da compreensão e de cuidados profissionais com as experiências traumáticas, que não puderam ser ultrapassadas e integradas no cotidiano da vida de cada um de nós, dificultando-a ou limitando-a.

Certamente que essas diversas metodologias não atuam milagrosamente, isto é, de forma mecânica e intempestiva. Além de sermos determinados por nossas heranças biológicas, temos nossas determinações psicocorporais e culturais, que nos configuram em uma determinada individualidade.

Desse modo, não podemos esperar e desejar milagres com qualquer metodologia, mas podemos ter certeza de que elas atuam e nos oferecem, dentro de um certo limite de tempo e de cuidados, a possibilidade de acessar, ultrapassar e integrar, em nossas vidas cotidianas, aquilo que, de alguma forma, estava atuando dentro de nós contra nós mesmos, --- nossos traumas ---, tenham sido eles maiores ou menores. Cada compreensão nova, que temos de nós mesmos no seio da trama de nossa existência, e com uma consequente nova atuação, mais saudáveis vamos nos tornando.

Escrevo este texto, expressando gratidão a todos os pesquisadores da alma humana que subsidiaram tantas compreensões que, hoje, detemos e usamos diretamente em nossas vidas, assim como em nossas atividades profissionais.

 

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